quarta-feira

Oliveira (Olea europaea)

Difícil imaginar o Mediterrâneo sem seus figos, videiras, frutas cítricas e azeitonas. Estas últimas chegaram mais tarde à região, presumivelmente cultivadas do fruto silvestre mais de 5 mil anos atrás. Depois que chegou, o azeite impulsionou a cidade-estado de Atenas, que nos legou a democracia, os jogos Olímpicos, o Partenon e um gosto pelas artes que dura até hoje.


Ídolos de Oliveira

Em 1907, o pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir adquiriu sua casa, Les Collettes, na cidade de Cagnes-sur-Mer no sudeste da França, porque queria salvar seu bosque de antigas oliveiras. Estava a procura de uma propriedade na Riviera Francesa quando ouviu falar de Les Collettes, uma chácara cujo antigo bosque de oliveiras seria derrubado para dar lugar a uma horta. No início do século XIX, valia mais investir em rosas do que em olivas. Renoir comprou a casa e salvou o bosque. Depois passou os últimos 11 anos de sua vida agitada em Les Collettes, lutando para captar a essência dessa árvore mediterrânea, a qual, como escreveu em carta a um amigo, estava "cheia de cores. Basta uma rajada de vento para a tonalidade de minhas árvores mudar. A cor não está nas folhas, mas nos espaços entre elas".
A oliveira era, e é, uma parte intrínseca do cenário mediterrâneo. Antigamente, porém, estava tão ausente do sul da França de Renoir como o eucalipto estava ausente da Califórnia. Um membro da família Oleaceae (que inclui o freixo, o lilás, o alfeneiro, o jasmim e a forsítia), a árvore pode atingir 20 metros quando cultivada, embora costume não ultrapassar três metros. As azeitonas maduras - pequenos frutos pretos, cada um com uma grande semente - contém cerca de 20% de óleo, e 99% da colheita destina-se ao azeite. O fruto é macerado, o caroço é removido, e a polpa é prensada a frio para produzir um azeite "virgem" com baixa acidez e o melhor sabor. Prensagens a quente subsequentes produzem azeites de qualidade inferior e um azeite secundário, de bagaço de azeitona. O bagaço serve para fazer sabão. enquanto a indústria do azeite de oliva às vezes queima os caroços, fornecendo calor ao processamento. Embora a oliveira tenha estimulado a economia do Mediterrâneo por 5 mil anos, Heródoto, no século V a.C., afirmou que não existiam oliveiras em nenhum lugar do mundo exceto Atenas. A raridade da oliveira levou-o a aconselhar um povoado, que tivera uma má colheita, a construir seus ídolos com madeira de oliveira em vez de pedra no futuro.
Reza a lenda que a deusa Atena, filha de Zeus, concedeu a oliva aos atenienses. Dizem que ela fez com que uma oliveira brotasse na Acrópole, que se tornou a origem de muitas outras. Essa dádiva supostamente deixou os atenienses em eterna dívida com a deusa.
Atenas era o centro cultural e comercial de uma federação frouxa de "cidades-estados" que chegou gradualmente ao poder na esteira da queda da civilização micênica em torno de 1120 a.C. Embora os Estados, incluindo a aguerrida Esparta, costumassem guerrear entre si, conseguiam se unir contra ameaças externas, como no fim do século V a.C, quando a Pérsia ameaçou sua hegemonia. 
A própria Atenas era governada por "tiranos" proprietários de terras ricos (governantes com poder absoluto e irrestrito). Em 540 a. C., um deles, Pisístrato, trouxe estabilidade política pelo tempo suficiente para que os bosques de oliveiras se consolidassem - o que levava uma década. (Aquelas mesmas árvores acabaram sendo transformadas em aríetes e escadas de escalar muralhas pelo general romano Lucius Sulla no cerco a Atenas.) Com o tempo, os tiranos deram lugar a uma forma de governo mais coletiva, com uma assembleia de representantes eleitos. O advento dos democratas liberalizantes (de demos, significando "o povo", e kratos, "poder") foi em parte uma reação à afluência crescente dos atenienses (é possível distinguir um processo similar nos Estados Unidos no século XIX). Assim como os gregos antigos abriram caminho para a primeira democracia do mundo, também criaram o que se tornaria o primeiro evento esportivo internacional do planeta. Os jogos Olímpicos, realizados a cada quatro anos em homenagem ao pai de Atena, Zeus, via os atletas convergirem a Atenas para competirem em eventos agora familiares como lançamento de dardos, lançamento de discos e corridas. Não foi apenas na arena desportiva que os atenienses se destacaram. Três séculos depois, fixaram um modelo em arquitetura com a construção do Partenon, que foi considerado um padrão em termos de proporções arquitetônicas "corretas" na Grã-Betanha georgiana mais de 2 mil anos depois. Assim como um óleo baseado em fósseis transformaria os Estados árabes nas potências mais ricas do mundo no século XX, a Grécia se desenvolveu em um superestado artístico, esportivo e democrático graças, em parte, ao seu azeite. 
A circulação de tanto azeite exigiu novos ofícios e tecnologias: uma moeda para negociá-lo, navios para transportá-lo, vasos de guerra para proteger da pirataria os navios mercantes (Atenas possuía uma marinha formidável) e oleiros que fizessem jarros, como a ânfora, para transportar o azeite. Além de produzirem  objetos utilitários, os oleiros também criaram a singular e bela arte cerâmica, com pratos, tigelas, vasos e taças decorados com cenas da vida doméstica, bem como de mitos e lendas.
O solo grego era fino e pedregoso demais para o cultivo de cereais, mas as receitas da produção de azeite ajudaram a financiar o cultivo de trigo nas colônias. A partir do século VIII, os gregos estenderam sua esfera de influência para Espanha, sul da França, sul da Itália, norte da África e delta do Nilo, mar Negro e mar Egeu. Cada região tinha seu porto-chave: Bizâncio (Istambul), Gados (Cadiz), Saguntum (na Valência) e Croton (na Calábria), bem como Creta e Chipre. Do governo local à disposição das ruas dessas cidades novas, cada colônia era um clone da nave-mãe, Atenas.
Edward Hyams, em seu livro Plants in the Service of Man (1971), concluiu que, apesar da lenda de Atena e de sua dádiva, a oliveira só chegou à Grécia em 700 a.C. Uma vez tendo deitado as raízes e alimentado a economia grega, foi remetida ao redor do Mediterrâneo. As árvores ancestrais do bosque de oliveiras provençais de Renoir chegaram a bordo de um navio grego que ancorou no porto de Massilia, atual Marselha. A Itália carecia de oliveiras até mais ou menos 370 a.C. Graças ao presente dos gregos, após dois séculos e meio aquele país tornou-se o maior produtor mundial de azeite.
Quando as velas de lona foram desfraldadas nos navios no século XV -  embarcações que anunciaram a grande era das explorações marítimas européias - , mudas de oliveira foram transportadas através do globo. Mesmo assim, com oliveiras cultivadas na Espanha, Itália, Turquia, Grécia, Tunísia, Marrocos, Japão, África do Sul, Índia, China, Nova Zelânia e Califórnia, ainda são os países mediterrâneos que consomem a maior parte -  80% - produção mundial de olivas.

Fonte: Bill Laws. Fifty plants that changed the course of history, Quid Publishig, 2010.
Website: www.billlaws.com

Nenhum comentário: